Pandemia pode dificultar o tratamento da esquizofrenia
Embora o tema saúde mental venha ganhando notoriedade nos últimos anos, a esquizofrenia ainda é um assunto pouco abordado, o que acaba acentuando o estigma e contribuindo para que haja demora na busca por um diagnóstico ou tratamento corretos. Estudo mostra que a chegada da covid-19 tende a piorar o cenário da doença. Além da dificuldade do diagnóstico, potencializada pelo isolamento social, a pandemia pode aumentar o risco de recaídas em pacientes com esquizofrenia, pois o estresse e restrições resultantes da quarentena podem acarretar a piora dos sintomas psiquiátricos que, quando não estabilizados, têm mais chances de resultar em novos surtos.
Dados de uma pesquisa realizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 130 países, mostra que a pandemia de covid-19 interrompeu os serviços essenciais de saúde mental em 93% dos países em todo o mundo. Mais de 60% relataram interrupções nos serviços de saúde mental para pessoas vulneráveis (incluindo crianças e adolescentes, adultos mais velhos e mulheres que precisam de serviços pré-natais ou pós-natais). Cerca de 67% alegaram interrupções no aconselhamento e psicoterapia, e cerca de 30% relataram interrupções no acesso a medicamentos para transtornos mentais e neurológicos.
Um dos principais obstáculos para tratar a esquizofrenia é a adesão ao tratamento. Segundo especialistas, cerca de 2/3 dos pacientes com transtornos psicóticos não tomam a medicação corretamente. Em um período de cinco anos, aproximadamente 80% dos indivíduos apresentam recaídas após o primeiro episódio da doença. As recaídas múltiplas culminam em uma perda progressiva da funcionalidade. Dessa forma, evitar recaídas desde o princípio da doença é uma prioridade no tratamento, e um potencial fator modificador da doença. "Pessoas com essa condição, desde que diagnosticadas e tratadas corretamente, podem levar uma vida socialmente ativa, trabalhar, estudar, casar, ter filhos e serem independentes como qualquer outra. A questão é que em alguns casos, por preconceito, medo ou falta de conhecimento, as pessoas acabam não buscando ajuda médica especializada, o que pode dificultar o diagnóstico e comprometer o tratamento", alerta o médico psiquiatra, Cristiano Noto.
Ainda de acordo com a pesquisa da OMS, 70% dos países alegaram ter adotado a telemedicina ou teleterapia como opções para contornar as interrupções nos serviços presenciais durante a pandemia. Há, no entanto, disparidades significativas na aceitação dessas intervenções, já que 80% dos países que relataram a implantação do serviço são de alta renda; países de baixa renda representam menos de 50%. Essa lacuna de cuidado representa um desafio importante, já que são justamente estes os países que mais precisam fortalecer seus sistemas de saúde e os cuidados em saúde mental.
Segundo o médico psiquiatra e professor, Rodrigo Bressan, apesar da dificuldade de tratamento, houve grande avanço nos medicamentos para o transtorno nos últimos anos e, atualmente, existem opções no mercado capazes de controlar as diversas fases da esquizofrenia e prevenir possíveis recaídas, com efeitos colaterais mínimos. Para facilitar a adesão às terapias, em alguns casos, são recomendados medicamentos de longa duração, capazes de controlar o quadro com aplicações mensais ou até mesmo trimestrais.
A esquizofrenia é uma condição crônica ainda muito estigmatizada que afeta cerca de 1% da população mundial. No Brasil, a enfermidade atinge cerca de 1.6 milhões de pessoas. Consiste em um transtorno mental complexo caracterizado por distorções no pensamento, percepção, emoções, linguagem, comportamento e consciência do "eu". Os sintomas podem incluir alucinações (ouvir, ver ou sentir coisas que não existem) e delírios (falsas crenças mantidas mesmo quando há provas que mostram o contrário).
De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a enfermidade é considerada a terceira doença que mais afeta a qualidade de vida entre a população de 15 a 45 anos de idade. A patologia geralmente tem início entre o fim da adolescência e o começo da vida adulta.