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Sobrevivente do acidente da Barragem da Corsan fala à imprensa pela primeira vez

Em sete meses (22 de setembro de 2019), tragédia completará 15 anos

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O casal Gisele e Juliano com o filho Lorenzo. Amor que ensina a superar dificuldades
Por Salus Loch
Foto Salus Loch

O pequeno Lorenzo – prestes a comemorar três anos no próximo dia 7 de março – brinca despretensiosamente com seu carrinho de plástico no meio da sala. No sofá, os pais da criança, Gisele Moretto e Juliano Dubil, estão de mãos dadas lembrando-se de algo que jamais gostariam de ter vivido. Lembrando-se de algo que jamais esquecerão.

Gisele é uma das 15 sobreviventes da maior tragédia de Erechim: o acidente da Barragem da Corsan, no KM7, que, em 22 de setembro de 2004, vitimou 16 estudantes entre 11 e 15 anos e uma monitora, de 22 anos. Naquele dia, no caminho para a escola, Erechim perdeu um pouco de seu futuro.

Na entrevista a seguir, Gisele, que segue morando a cerca de 1 km da Barragem, fala pela primeira vez à imprensa a respeito do que aconteceu, agradece por estar viva e pelo melhor presente que já recebeu: seu filho, Lorenzo.

O que você lembra do acidente?

Eu tinha 11 anos na época. Era uma criança, assim como todos que pegavam o ônibus para ir estudar. Éramos vizinhos, colegas e amigos. Aquela quarta-feira amanheceu com uma chuva fina. Sai de casa, onde morava com meus avós, e fui para a parada. Eu pegava o ônibus na penúltima parada. Por volta das 6h35min entrei com mais duas crianças, incluindo minha prima Tainara dos Santos, que morreu no acidente. Na última parada, subiram mais 5 alunos e a monitora (apenas dois deles sobreviveram). Do momento em que entrei até o acidente não deve ter passado mais do que 2 ou 3 minutos. O ônibus estava rápido, como de costume. De repente, passamos a ponte e caímos na barragem. Senti água nos pés e, não sei como, dei um jeito de sair pela janela. Lembro que pedia socorro e engoli muita água.

Depois, não lembro de nada.

Deve ter desmaiado...

Acredito que sim. Apaguei e, só um tempo depois, lembro de estar deitada na estrada pedindo que me levassem ao hospital. Só voltei a acordar na cama do hospital.

Quando você ficou sabendo da gravidade do acidente: na hora ou só mais tarde?

Só mais tarde.

Como é continuar morando próximo ao local da tragédia? Muitas famílias se mudaram…

Verdade, muitos foram embora daqui. Eu também havia deixado Erechim no fim de 2004. Fui para o Paraná morar com meus pais, mas em 2012 voltei.

O que te fez voltar?

O Juliano, que é daqui.  

Certo. Então você voltou, digamos, por amor?

Sim. O Juliano, que é motorista, me descobriu lá e resolvi voltar com ele. Da nossa relação nasceu o melhor presente que poderíamos ter: nosso filho Lorenzo.

Você e o Juliano já se conheciam antes? Digo, antes dele ir te ‘buscar’ no Paraná?

Sim, mas éramos novinhos. Quando fui embora, em 2004, ele tinha 10 e eu 11 para 12 anos. Acho que foi o destino que nos aproximou… O irmão dele, o Márcio, morreu no acidente.

Olhando para trás, com que sentimento você avalia o que aconteceu em 2004?

Jamais vou esquecer-me dos amigos e colegas que perdi, mas, posso dizer que nasci de novo.

E o que você está fazendo desta ‘nova vida’, quase 15 anos depois?

Graças a deus tenho uma família. Tenho meu pequeno. Tenho um marido. Temos saúde. A gente dá força um para o outro. É preciso seguir em frente. É isto o que estamos fazendo.

Saiba mais

2002 - Ônibus que trafegava em uma estrada de terra entre as comunidades do Km7 e 10, no interior de Erechim, ao cruzar uma ponte, caiu na Barragem da Corsan, vitimando 17 pessoas. Segundo a perícia houve falhas na manutenção do veículo. Além disso, as condições da estrada eram ruins e o motorista estaria em velocidade acima do permitido. À época, o Ministério Público denunciou o motorista e os responsáveis pela empresa a qual ônibus pertencia. Familiares das vítimas também ingressaram com um processo indenizatório contra a Corsan, prefeitura de Erechim, motorista os empresários.

2009 - Sete anos após o acidente, a Justiça de Erechim pronunciou os réus, o motorista e os dois proprietários da empresa, por homicídio doloso. Todos deveriam ir a júri popular.

2010 - Um ano depois, o caso foi parar no Tribunal de Justiça do RS. A defesa dos réus sustentou que o crime deveria ser classificado como homicídio culposo de trânsito (pena é mais branda). No mesmo ano, o MP recorreu para o Superior Tribunal de Justiça (STJ).

2013 - Três anos após, o STJ concordou com o Tribunal de Justiça gaúcho - considerando o crime como ‘Homicídio Culposo’. MP, então, recorreu ao Supremo Tribunal Federal – que negou o pedido e manteve a decisão das instâncias inferiores.

2013 – No mesmo ano, os responsáveis (Corsan, prefeitura – a quem cabia o transporte dos estudantes, e a empresa proprietária do veículo, que executava o serviço), foram condenados a pagar uma indenização às famílias das vítimas no valor de R$ 16 milhões.

2014 – A decisão do caso voltou para a Comarca de Erechim.

2017 – Na sentença, a Justiça, em 1a instância, condenou o motorista a nove anos de prisão por homicídio culposo. Os empresários tiveram pena determinada em seis anos de detenção. Todos recorreram.

2018 – Menos de um mês após completar 14 anos, em 2018, o caso foi declarado prescrito pela justiça, apesar da condenação anterior. Com isso, os réus não precisarão cumprir a pena.

 

Abandono

Quase 15 anos depois, a pequena ponte sobre a barragem da Corsan expõe uma placa de interdição, proibindo o trafego de veículos no local. Próximo dali, uma outra placa (colocada pela Fundação Vida Urgente, com a finalidade de honrar os mortos na tragédia) mostra-se abandonada – e com os nomes das vítimas praticamente pagados.

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