A infância humilde em Sete Lagoas, interior de Itatiba do Sul, não impediu que o jovem Alderi Bertuzzi fosse atrás de seus sonhos. Depois de trabalhar como engraxate, jornaleiro, ‘cortador’ de erva mate, servente de pedreiro, vigia e motorista, hoje, o cinegrafista de 53 anos – que está em vias de completar três décadas de atuação no Grupo RBS – é uma das referências estaduais quando o assunto é captar grandes imagens; embora nem sempre o registro seja de momentos felizes. Geralmente, aliás, não o são.
Doce neve
A carreira de Alderi, ou melhor Birica – apelido dado para diferenciá-lo de um apenado flagrado por suas lentes e com nome semelhante ao seu – começou por vias tortas e geladas num longínquo inverno do início dos anos 90, quando Erechim foi acometida por uma neve que pintou de branco a cidade.
À época, Birica, então com 24 anos, era motorista da RBS local – e cabia a ele buscar o cinegrafista da empresa, que morava no bairro Estevam Carraro, a fim de registrar o espetáculo da natureza.
O deslocamento entre a emissora e a residência do colega, no entanto, poderia colocar em ‘risco’ a captura dos flocos que bailavam nos céus de campo pequeno. Foi quando a repórter da RBS Marli Bertotti, intuitiva como todo bom jornalista deve ser, acabou sugerindo a Birica:
- Por que você não faz as imagens? Precisamos garantir a cena. Tente. Filme, disse ela.
Meio sem jeito, o motorista virou cinegrafista e, do alto do Condomínio Erechim (então, o maior prédio da cidade), caprichou no foco, apesar da inexperiência.
Resultado: as imagens foram parar no Jornal Nacional – para o Brasil inteiro ver.
Na sequência, invariavelmente em situações de emergência, Birica passou a registrar acidentes de trânsito, garantindo a notícia, e, como consequência, a vaga de cinegrafista tão logo a oportunidade apareceu.
Transpiração
Trinta anos depois, Alderi Bertuzzi olha para trás e confessa nunca ter tido o sonho de ser um profissional de destaque, especialmente pela infância pobre, a falta de estudo e de oportunidades. ‘De onde eu vim, era complicado’ conta rememorando que o emprego na RBS, naquele período, era algo que não se adequava ao que chama de ‘seu mundo’. No entanto, o tempo passou e ele foi se inserindo no meio. ‘Gostei, transpirei para caramba e acho que acabou dando certo’, resume com humildade.
Imagens que ficam
Questionado sobre quais teriam sido os registros mais marcantes, Birica titubeia, mas lembra da tragédia com o ônibus escolar na Barragem da Corsan, em Erechim, no dia 22 de setembro de 2004, quando 17 pessoas morreram, sendo 16 crianças. Ele também trabalhou na cobertura do desastre com o avião da Chapecoense na Colômbia, em novembro de 2016, deixando 71 mortos; e no registro dos desdobramentos da explosão, durante a aterrissagem, de um voo TAM na rota Porto Alegre/São Paulo, em julho de 2007, matando 199 pessoas.
Nem tudo, porém, é tristeza. Birica foi um dos cinegrafistas da Copa do Mundo de 2014, no Brasil. Além disso, invariavelmente, imagens de geada, belos nasceres do sol e até mesmo da neve, quando ela vem, passam pelas lentes do experimentado profissional, ganhando o estado e o país. ‘Prefiro as belezas da vida e a natureza’, resume.
Mais transpiração para aproveitar a inspiração
Hoje, no entanto, com um celular nas mãos muitos se julgam repórteres, fazendo as vezes, inclusive, de cinegrafistas. Pergunto a Birica como isso influencia o trabalho do profissional da imprensa, ao que ele responde:
- Vejo que se ganhou agilidade – o que vale para factuais e flagrantes. Mas, a essência, o cuidado, o carinho e o amor com que se buscam as imagens não devem ser substituídas. Ao menos, não com a mesma qualidade.
Por fim, o filho de Sete Lagoas reconhece: nos dias atuais, é preciso inovar e transpirar mais para que o tempo de inspiração seja bem aproveitado.