Homenagem à Mulher Cerceada
Riopardense de Macedo sempre foi um pesquisador. Escreveu 32 livros e centenas de artigos em sua carreira, inclusive sobre a colonização açoriana, italiana e alemã. A inclusão da mulher no modelo idealizado por ele para homenagear os imigrantes no mosaico da Praça da Bandeira, portanto, não resultava de um conhecimento empírico.
Outros estudiosos chegaram a mesma conclusão sobre o labor feminino no campo, como o texto publicado pela jovem Samanta Ritter, que prima pela originalidade do tema: “Mulheres Imigrantes Alemãs no Rio Grande do Sul”[i]:
“Jean Roche, afirma mais de uma vez em seu livro, que “(...) a simples sobrevivência biológica só foi possível graças ao trabalho de tôda família (...)” (ROCHE, 1969, p. 480). ”
‘É tôda a família que trabalha, sobretudo, na primeira geração. (...) os homens, as mulheres, e muitas vezes as crianças, são absorvidos, da manhã à noite, no desbravamento da floresta. Se a derrubada e a queimada são tarefas masculinas, as mulheres semeiam, plantam, mondam, colhem, ordenham e devem, ainda, fazer o pão, a manteiga, a lixívia, etc. (...). Também a avó, que fica em casa, cuida da cozinha (...)’ (ROCHE, 1969, p. 559). ’
Ocorre que a história, predominantemente narrada pelos homens, quando não foi silenciosa em relação aos feitos das mulheres, as tratou com preconceito.
Samanta Ritter em seu estudo concluí que “era preciso ser piedosa ou escandalosa para existir”. Traz o exemplo da colona Jacobina Maurer, que ficou conhecida no grupo chamado de Mucker (falsos beatos) que gerou uma insurreição no Morro do Ferrabrás, município de Sapiranga.
“Jacobina Maurer quando aprendeu a ler em alemão já era adulta, e interpretava a Bíblia para os colonos que frequentavam sua casa. Com isso, porém, a colona subvertia a ordem, pois “o saber é contrário a feminilidade. Como é sagrado, o saber é o apanágio de Deus e do Homem, seu representante na terra. ”
Todavia, se fosse apenas a liderança de uma mulher escandalosa, o grupo não teria sido tão cruelmente reprimido pelo Império, que depois de algumas derrotas, matou todos do movimento, inclusive a líder Jacobina.
Mesmo não estando mais no século XIX como a colona dos Mucker, mas em meados do XX, a mulher de Erechim não conseguiu aparecer no mosaico da Praça da Bandeira, talvez por não ter sido “piedosa ou escandalosa”, mas apenas laboriosa.
Para concluir, o desejo que tenho é que a população de Erechim trabalhe para que o mosaico da Praça da Bandeira seja restabelecido conforme idealizado por Riopardente de Macedo, não só para honrar seu trabalho, mas, principalmente, para que o Monumento seja digno das gerações de mulheres que trabalharam pelo desenvolvimento da Cidade.
Sergio Martins de Macedo
Advogado, Especialista em Direito Ambiental e do Patrimônio Histórico e Cultural pela UFRGS
[i] Ritter, Samanta. Revista do Departamento de História e Geografia da Universidade de Santa Cruz do Sul. Ágora [ISSN 1982-6737]. Santa Cruz do Sul, v. 20, n. 01, p. 102-111, jan./jun. 2018.