Nos últimos anos, as cidades brasileiras observaram um aumento expressivo de transportes alternativos. O hábito de se locomover com bicicletas, patinetes e motos elétricas cresceu e os erechinenses estão acompanhando essa nova modalidade, que permite além de praticidade, qualidade de vida e uma nova forma de vivenciar o espaço urbano. Contudo, sem ciclovias, a Capital da Amizade limita o uso cotidiano e caminha em passos curtos para proporcionar a segurança aos adeptos desse modal.
Essa é a realidade da licenciada em História e ciclista, Ariane Gisi. “Acredito ser muito importante pensar a cidade como um organismo vivo, como um espaço de convivência e interação, neste sentido a bicicleta passa a ganhar mais destaque, não somente como um recurso para o lazer e esporte, mas também como um meio de transporte. A minha motivação para iniciar a pedalar partiu da necessidade que eu tinha de favorecer o meu condicionamento físico”, contou à reportagem do Jornal Bom Dia. No entanto, Ariane afirma que esse uso, ainda, não é tão frequente. “Além de morar próximo ao meu trabalho, eu sinto falta de espaços adequados e seguros para utilizar a bicicleta. Muitas vezes a vontade de pedalar esbarra em diversos obstáculos, como a falta de infraestrutura e recursos. Eu acredito que existem poucas ciclovias em Erechim e que não são capazes de dar conta da demanda que a cidade necessita, além disso ainda precisamos enfrentar a indiferença que muitos condutores motorizados têm a respeito dos ciclistas”, acrescentou. Para ela, pedalar transcende a prática de exercício físico. “É uma forma de se desligar da rotina e de se conectar com a natureza, con
sigo mesmo. Pedalar é sentir-se livre, é ter autonomia para escolher os caminhos, é sobre sentir a peculiar sensação de liberdade quando o vento bater em seu rosto. É experimentar outro olhar sobre a cidade e sobre si”, concluiu. Da mesma maneira, o empresário Ricardo Argenta, acredita que essas novidades irão transformar a maneira de se locomover na cidade. “Há algumas semanas estou utilizando diariamente a moto elétrica e minha rotina mudou completamente, o percurso que eu realizava em 10 minutos de carro diminuiu pela metade. Penso que esses meios de transportes vêm para revolucionar nossa mobilidade, porque reduz os custos e eles são sustentáveis, não poluindo o ar”, pontuou. Além da praticidade, a escolha pela moto se justifica também por causa da dimensão financeira. “Um carro depende de manutenção, tem o imposto de Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) e os valores que serão direcionados à gasolina. Outra questão que pesou na minha decisão é a liberdade que a moto oportuniza, eu posso transitar livremente e não perco tempo em congestionamentos, só preciso recarregar a bateria à noite”, complementou o
empresário. Argenta ressaltou que a estrutura da cidade pode ser aprimorada para contemplar as pessoas que estão trocando o carro por esses modais. “Seria maravilhoso ter uma ciclovia na extensão das avenidas principais. E, acredito que esse será o transporte do futuro, justamente pela questão ambiental, considerando que cada vez mais as pessoas estão fortalecendo suas consciências e optando por alternativas sustentáveis”, concluiu. A segurança das pessoas é motivo de preocupação para o arquiteto Clau Nardelli. “Eu usei um patinete elétrico emprestado por 10 dias e estou sentindo muito a falta de me locomover com ele, afinal, eu conseguia estar em diversos lugares gastando pouco tempo com o percurso. No entanto, é nosso corpo que está ali disputando espaços e, por mais que os patinetes sejam produzidos de modo a se adaptar à altura e peso da pessoa, é preciso ter bom senso na condução dele. Com relação a cidade, eu não sei como os cadeirantes transitam por ela, pois os acessos tem uma declividade alta e em muitos pontos têm rebocos e paralelepípedos soltos. Além disso, a questão sustentável ainda não está muito compreensível
para mim, pois não sei como serão os descartes das baterias”, contou. Topografia da cidade é o principal empecilho De acordo com o secretário municipal de Obras Públicas, Habitação, Segurança e Proteção Social, Vinicius Anziliero, a viabilidade de uma ciclovia esbarra na topografia da cidade. “Ela não facilita o uso desse tipo de transporte, pois possuí muitas subidas, principalmente nas ruas centrais, talvez em outras áreas seria possível, mas seria necessário um estudo de sua utilidade, para saber se é uma demanda da população”, argumentou. Segundo Anziliero, atualmente para ter um espaço reservado aos ciclistas e usuários de motos e patinetes elétricos, “teríamos que retirar uma faixa destinada aos carros ou diminuir a parte dos pedestres, considerando a largura de nossas avenidas principais”. Para ele, esse movimento só será possível a partir de uma demanda expressiva. “Nós não temos empresas de empréstimos de patinetes, por exemplo, assim, reduz as possibilidades de ter na cidade usuários e tudo depende da demanda, afinal, não podemos alterar a cidade inteira por dois ou três erechinenses em de
trimento de toda a população”, argumento, citando, ainda, que o poder público já está produzindo o Plano Municipal de Mobilidade Urbana, “nosso objetivo é fortalecer o transporte coletivo para que as pessoas possam optar por ele e reduzir o uso de veículos particulares”, concluiu. No entanto, há estudos que mostram que um sistema cicloviário em Erechim é possível, como o do arquiteto Diemesson Hemerich. “No meu trabalho de conclusão de curso pela Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), percebi que um grande problema das pequenas e médias cidades brasileiras é a falta de atenção em relação ao Plano de Mobilidade Urbana. Esbarramos em alguns empecilhos quando se trata diretamente da bicicleta, uma delas e talvez a principal, seja a topografia da cidade. Para que isso fosse contornado o trabalho consiste na implantação de oito estações, integrando o transporte coletivo ao ciclístico. Assim, as pessoas poderiam se deslocar à estação com sua bicicleta e continuar o trajeto de ônibus, ou vice e versa”, relatou à reportagem. Para ele, outra alternativa é aproveitar a rede ferroviária. “A ferrovia tem por norma uma inclinação máxima de 5%, substituída pela ciclovia, tal inclinação seria ideal para o uso da bicicleta. Dessa forma, o plano consistiria não apenas em viabilizar outros transportes, mas em uma mudança de cultura a longo prazo, voltado ao lazer, a saúde e a integração de espaços públicos, aproximando mais as comunidades erechinenses. O trabalho foi um grande desafio por se tratar de uma rede cicloviaria completa com aproximadamente 49km, só dentro da área urbana de Erechim, e se implantado, com certeza sofreria com críticas devido a vários fatores, porém após toda a minha pesquisa eu acredito que o plano é viável e necessário”, concluiu.