Erechim completa 102 anos de emancipação durante a maior catástrofe planetária dos últimos tempos.
Lá nos primórdios, ainda quando distrito de Passo Fundo, em 1918, acontecia a imensa pandemia da Gripe Espanhola, talvez a mais mortal à raça humana. Infectou 500 milhões de pessoas, cerca de um quarto da população mundial à época, com o número aproximado de cem milhões de mortos.
Interessante lembrar que naquele período chegava ao fim a Primeira Grande Guerra Mundial. Muito da imigração resultou do conflito. E hoje sabemos que Alemanha, França, Inglaterra e EUA, censuravam notícias sobre a pandemia, para não influir sobre os ânimos bélicos.
A Espanha, que era um país neutro, noticiava regularmente os acontecimentos relativos à enfermidade. Tais matérias, sem maiores filtros, davam a falsa impressão ao restante do mundo de que a gripe atingia especialmente aquele país. Daí o nome Gripe Espanhola.
O vírus influenza, causador da pandemia, segundo alguns historiadores, desequilibrou a contenda em favor dos aliados, pois sua propagação iniciou por países no centro da Europa, como Alemanha, Áustria e adjacências.
Nesse ano de 1918, em setembro, a Gripe Espanhola desembarcou no Brasil. A mutação viral chegou por navios ao Rio de Janeiro, Salvador e Recife. No mês seguinte, outubro, o país inteiro arcava ante à mais devastadora epidemia da sua história. Escolas sem alunos, bondes vazios, comércio com portas cerradas e profissionais liberais inativos. A exceção ficava para as farmácias e os poucos e deficientes hospitais abarrotados.
No auge da crise, Prefeitos e Governadores, com certo atraso, distribuíam remédios, alimentos e improvisavam enfermarias em escolas e clubes. Cadáveres se acumulavam nas ruas da capital federal.
Fica claro e cristalino que aquele momento histórico difere profundamente do atual.
Porém, também se torna claro e cristalino que desde aquela época as grandes potências militares e econômicas manipulavam as informações estratégicas ao sabor das suas conveniências. Mais ou menos como ocorre hoje, em algumas ditaduras orientais.
Passados mais de cem anos, ora com a comunicação imediata e universal, via World Wide Web (rede mundial de computadores), por seus usuários e empresas de comunicação, se produz informação local e em tempo real em quantidade absurda, de modo a reduzir muito a possibilidade de ocultação da realidade. Mesmo assim, grandes conglomerados de televisão insistem em politizar a desgraça global, muitas vezes, visando tão somente particulares proveitos espúrios.
Desses 102 anos, comemorados em data de tão triste memória, certamente para o futuro ficarão lições inesquecíveis que mudarão hábitos pessoais e coletivos em prol da saúde.
No entanto, alguns dilemas do passado tendem a se repetir e permanecem inalterados. Ressurgem eternos.
Dou como exemplo a falta de memória popular. Ou seja: o incrível poder da mente coletiva de não pensar sobre o passado, que ainda há pouco existiu de forma intensa e grotesca.
Outro problema eternamente emergente é a mentira, que adota o emprego da palavra falsa, com o objetivo deliberado de enganar e iludir o público.
Lembro ainda as escolhas. As conflitantes e às vezes dolorosas escolhas, que consistem em grave problema filosófico; exigem optar entre diferentes desejos perante pressões e atitudes que combatem entre si. Muitas escolhas resultam em decisões e ações improrrogáveis.
Assim segue Erechim aos seus 102 anos e o Mundo sem fim, sobreviventes a pandemias, interesses mesquinhos, mentiras e escolhas, em marcha acelerada independente da nossa vontade.
Sim, amigos leitores, no início do século passado, nossos avós sobreviveram a pandemia e a vida sofrida das Terras Novas. Não havia água encanada, luz elétrica ou o mínimo conforto; as condições de higiene precárias e a vida entre animais domésticos ou selvagens corria solta. Vestiam apenas uma muda de roupa surrada. Seus pertences se resumiam a algumas ferramentas agrícolas primitivas, panelas, latas, talheres rústicos e pelegos para dormir. Às noites, passavam ao redor do fogo de lenha e alimentação minguada – quase selvagem.
Mas tinham suas mãos, tinham coragem e solidariedade. Essa foi a herança maior e também será nosso maior legado. Pois, a exemplos ancestrais, sim, nós também vamos sobreviver à crise. E se Deus permitir, acalentar nossos netos con grande onore.