A região está em bandeira preta e isso significa altíssimo risco de contaminação pela covid-19 e, também, a possibilidade iminente de sobrecarga do sistema público de saúde. Há aumento de casos ativos e elevação da taxa de ocupação de leitos clínicos e de leitos de UTIs, o que resulta, inevitavelmente, no crescente número de óbitos. A conjuntura atual demonstra que há possibilidade real de colapso do sistema de saúde.
Santa Terezinha
Segundo a enfermeira do pronto-socorro do Hospital Santa Terezinha, Letícia Fontana, que trabalha há dois anos e meio no hospital, este é o pior momento, até agora. “Já não sabemos se vamos conseguir continuar dando a assistência que os pacientes demandam, que chegam aqui em estado muito grave e todos precisam ficar internados para realizar o tratamento correto, todos precisam de oxigênio e alguns já chegam precisando de intubação”, afirma.
Conforme Letícia, está bem difícil de trabalhar, os profissionais estão exaustos. “São dias muito tensos e a todo momento chegam pacientes com casos gravíssimos. Estamos com déficit de profissionais, equipamentos, respiradores”, afirma. E, acrescenta, “e não paramos de atender as outras doenças, traumas, acidentes de trânsitos, acidente vascular cerebral (AVC), infartos, ferimentos por armas, casos que continuam vindo procurar o pronto-socorro”.
Letícia afirma que o que preocupa muito é a falta de comprometimento das pessoas com o trabalho realizado nos hospitais, já que tem muita gente sem máscara e fazendo aglomeração nas ruas. “O momento é grave, estamos fazendo de tudo pra poder dar assistência aos pacientes, porém este tudo que estamos fazendo pode não ser o bastante. O que a gente observa é que muitas pessoas internam e só saem daqui em óbito, passam dias na UTI, e só saem daqui dentro de um caixão”, comenta.
Intubação
Ela conta que a intubação é um procedimento impactante porque o paciente está razoavelmente lúcido, no momento, falando, mas é preciso colocar ele pra dormir para intubar. “E, às vezes, ele nunca sai desta condição, nunca mais vai ver um familiar, e isso afeta muito o emocional da gente. Estamos fisicamente e emocionalmente cansados, arriscando nossas vidas para cuidar de pessoas que são importantes para outras pessoas. Então, precisamos da colaboração de todos, fiquem em casa, mantenham o distanciamento e continuem com os cuidados”, ressalta.
A enfermeira do pronto-socorro enfatiza que o hospital é referência para mais de 32 municípios e que eles, também, tentam diariamente encaminhar pacientes que necessitam de internação, para um maior cuidado. “Não estamos conseguindo atender esses pacientes por falta de leitos, pois muitas áreas de leitos clínicos que nós tínhamos, como enfermaria pediátrica, já estão sendo usados para pacientes com covid”, destacou.
Áurea
O médico de Áurea, Wesley Nazzari, afirma que a situação está ficando a cada dia mais complicada e que as pessoas precisam se conscientizar, seguir as recomendações de prevenção à covid-19, porque senão poderá ter um colapso no sistema de saúde e não vai ter leitos para as pessoas.
Ele explica que ainda está conseguindo encaminhar pacientes com covid em estado grave para o hospital-referência, Santa Terezinha. “O maior problema, hoje, é internar pacientes que não estão com covid, por causa da superlotação de covid, são pessoas que tem outros problemas em que é preciso, por exemplo, fazer uma tomografia ou em casos mais complicados que necessitam mais exames. Houve um caso que foi quatro vezes para Erechim e voltou, e eu tive que tratar ele aqui. Eu queria que fizesse mais exames e por falta de leito mandaram o paciente de volta. A maior dificuldade é com os pacientes que não estão com covid”, relata.
No entanto, observa o médico, os casos ativos de covid-19 em Áurea estão aumentando, e em função disso, se está começando a internar covid no município porque o hospital-referência, Santa Terezinha, já está sobrecarregado. Os municípios que têm hospital como Áurea, Viadutos e Erval Grande vão ter que internar pacientes com covid.
Ele explica que até se consegue atender pacientes que não estão em estado grave, já que tem medicação para dar o suporte básico. “Fica ruim até o ponto em que precisar de respirador, porque os municípios não têm respirador e UTI”, disse.
Erval Grande
O médico, Dejair Pazzini, de Erval Grande, publicou um vídeo nas redes sociais, no último fim de semana, mostrando a preocupação com a saúde de pacientes com covid-19, já que o município não está conseguindo leitos nos hospitais de referência da região, como o Santa Terezinha.
“Esta é a nossa realidade em Erval Grande, estamos há dois dias ligando sem parar e não conseguimos uma vaga”, disse. E, acrescentou, “temos outra paciente, aqui do lado, também positivo para covid e nas mesmas condições. Ela está com oxigênio e toda a medicação necessária, disponibilizada pela prefeitura. Estamos fazendo aquilo que dá”, disse.
No entanto, o médico observa que se alguém sofrer um acidente de moto ou enfartar não adianta levar para Erechim, por exemplo, Passo Fundo, Porto Alegre. “Porque não tem vaga nos hospitais”, afirma. Pazzini faz um apelo para a população ficar em casa, não sair às ruas, não visitar ninguém e não receber visita. “Isso é temporário, daqui um tempo tudo vai passar e vamos voltar a vida normal”, disse.
E, acrescenta, “eu imploro para vocês se cuidarem, porque no momento que precisar, e chegar um caso mais grave, não tem aonde levar, e no mundo inteiro não existe um tratamento prático para curar a covid-19. Então, usem máscara, álcool gel, façam higiene e tenham boa alimentação”.
Hospinorte
O presidente da Associação de Hospitais e Estabelecimentos de Saúde do Norte do Estado do Rio Grande do Sul (Hospinorte), Lucir de Conto, afirma que sem dúvida o sistema de saúde da região está começando a ficar sobrecarregado, e é preciso a conscientização da comunidade e seguir os protocolos de segurança.
“A situação é muito preocupante com relação à disponibilidade de leitos de UTI e leitos com equipamentos mais especializados, no Santa Terezinha. Além disso, as equipes médicas estão sobrecarregadas e com dificuldades de conseguir profissionais, portanto, é um momento que exige o comprometimento da comunidade, com a consciência das pessoas em cumprir os protocolos para não enfrentarmos um colapso logo ali adiante”.
Ele acrescenta que o problema dos hospitais do interior é histórico, que já vivem uma situação delicada há bastante tempo, tanto do ponto de vista dos repasses ou para manter as estruturas. “E a pandemia está complicando cada vez mais esses problemas que já existiam”, disse.