Natural de Erechim, Isolda Julieta Franceschi, de 80 anos, compartilha memórias da cidade. Numa tarde ensolarada, chego numa casa com a pintura verde-claro, um abacateiro ao lado, essas foram as orientações para chegar até a nossa entrevistada. Ao tocar a campainha ela faz a recepção, sentamos na sala para conversarmos. A sala tinha espelhos, lavatórios, frascos de shampoo, logo, constatei que o espaço era um salão de beleza. O local de trabalho foi montado por ela e a mãe, ambas trabalhavam com o cuidado de cabelos.
A ida e a volta
“Eu e a minha família trabalhávamos na copa do Clube Atlântico. Quando me casei fui para o Paraná, pois os pais e os irmãos do meu marido moravam lá. Com a mudança, trabalhávamos em um hotel, onde recepcionávamos o Lions, o Rotary, um lugar em que circulavam muitas pessoas, muito bonito. Ao retornar para Erechim, após o divórcio, voltei paa a casa dos meus pais. Trabalhei na Incosul, uma empresa de venda de móveis, depois trabalhei na Autolândia, uma revenda de carros, na parte de vendas e cobrança. Por último, abri um estabelecimento de lanches, próximo a minha casa, em que trabalhei por seis anos”, menciona ela.
Depois de vender o ponto, começou a trabalhar no salão com a mãe, o local era bem movimentado. Ela e a mãe cuidavam dos cabelos e a irmã fazia o trabalho de manicure. Aos poucos, com a idade avançando, o movimento foi diminuindo, em decorrência do tempo. Isolda ainda atende algumas clientes, mas ela diz que o máximo que consegue são três, pois o pique não é o mesmo e ela já se sente cansada. O trabalho acaba se tornando mais pesado com o tempo.
O salão de beleza
Isolda relata que antigamente, atendiam muitas clientes, inclusive de Getúlio Vargas, pessoas que se arrumavam para ir a eventos de Erechim. Sobre o trabalho no salão de beleza: “Comecei a trabalhar no salão quando saí do meu último trabalho, nos finais de semana em que eu não trabalhava eu sempre ajudava a minha mãe com a produção dos cabelos. Teve épocas em que minha mãe tinha três manicures trabalhando, porque tinha muito movimento, e poucos salões de beleza na cidade. Hoje em dia tem muito mais, o meu nem conta, pois eu já estou trabalhando mais devagarinho. Eu trabalhava só com corte de cabelos, penteados, pintura e permamente, que hoje é o alisamento”, conta Isolda.
Inverno rigoroso
Dentre as lembranças dela estão os dias de inverno intenso na cidade. “Nós estudávamos no colégio de freiras, eu me lembro do inverno, nossa mãe comprou capas para usarmos, tipo as de tropeiro, para irmos para a escola. Tínhamos galocha de borracha para ir, levávamos os nossos chinelos para que na chegada trocássemos os sapatos, e deixávamos a capa pendurada em um cabide. As galochas ficavam em cima de um jornal, pois estavam sujas, dentro da escola usávamos os chinelos”, relembra Isolda.
O tipo climático de Erechim se caracteriza por ser subtropical úmido. Os meses que registram as maiores temperaturas na cidade são janeiro, fevereiro e dezembro, com média de 28°C; e os que registram as menores são junho e julho, com média de 8°C. Erechim sofre variações de temperatura na troca das quatro estações. A precipitação de neve não é rara, já ocorreu nos anos de:1918, 1942, 1956, 1957, 1965, 1990, 2001.
“Passamos por uma época em que teve uma grande nevada, lembro da Avenida Maurício Cardoso alta de gelo. E depois, quando voltei do Paraná, eu tenho um registro em frente a minha casa de outro período rigoroso de inverno. Ficávamos em volta do fogão a lenha. Tínhamos que limpar o teto por causa da umidade, com o calor do fogão, ficavam aquelas gotículas de água por toda a casa, tínhamos que estar a todo momento secando, por causa do frio”, recorda ela.
Minha casa é Erechim
Os dois filhos moram em outras cidades, um em Porto Alegre e o outro no Rio de Janeiro. Eles até queriam que ela fosse morar com eles, mas ela diz que não sai de Erechim de jeito nenhum. “Eu gosto daqui, porque eu nasci e me criei em Erechim, era muito diferente naquele tempo, hoje a cidade cresceu muito. É uma cidade acolhedora, eu gosto, sou filha de Erechim. Se eu morasse em Porto Alegre, viveria em uma casa com muros de três metros de altura, não teria a segurança que tenho aqui. Eu estou aqui, gosto muito de mexer com a terra, cuidar do meu jardim, não trabalho mais como antes, mas conheço a vizinhança, isso tudo me faz bem. Aqui eu tenho tudo, vou para o Rio para morar na cobertura de um apartamento, o lugar é lindo, conseguimos vir o Cristo Redentor de lá, é belíssimo, mas precisa fazer o deslocamento de elevador, então eu não troco a vida que eu tenho aqui”, acrescenta Isolda.