Venho acompanhando uma crescente onda de apatia em objetivos, gostos, hobbies, relacionamentos... As pessoas gostam do artista, mas ironicamente. Vão no cinema em cosplay assistir ao filme, ironicamente. Tem uma banda, mas não é pra “dar certo” ou “viver disso”. Passam dias pintando um quadro, mas o apresentam como “tá uma porcaria, mas olha só o quadro que fiz ontem”. Passam anos escrevendo um livro, mas nunca vão lançar, por que nem é nada demais: “tá ruim, mas leia aqui se quiser.”
Parece que há uma vergonha em se ter interesses, se dedicar a alguma coisa, aquilo ser importante pra você. Fazer um vídeo lipsinging uma música no Tik Tok é legal, realmente dedicar-se para tirar aquela música e gravar você cantando mesmo é cafona. As pessoas tem medo de se comprometer com algo, pode ser a coisa mais importante da vida da pessoa, ela nunca dirá isso. Talvez seja o medo da rejeição, aí já apresenta de uma maneira como “eu mesmo não vejo valor nisto que dediquei anos da minha vida para fazer”.
Cada vez parece mais enraizado um niilismo coletivo. Sonhar virou algo vergonhoso. O que criou uma onda de subcelebridades que são apenas pessoas ricas que mostram o que elas têm, elas não fazem nada, não se comprometem a nada, apenas compram. Posso de fato estar ficando velho, mas na minha cabeça riqueza e fama são importantes se você é rico e famoso em virtude das suas qualidades, seus projetos, seus trabalhos, ser rico por ser rico não é nenhuma vitória. O Paul McCartney é uma celebridade e rico por sua carreira musical e não por nascer Paul McCartney, parece que vivemos a era dos bastidores sem show principal.
Isso também reflete nos ambientes de trabalho onde não importam onde estejam aquilo não realmente é importante pra pessoa. Pobre do amor, pois ali é onde ficaríamos mais vulneráveis, então ninguém mais realmente quer alguém. Nada importa. Podemos até ver nas músicas atuais que são versões de “Que eu pego todo mundo e não tô sentindo nada.” Ênfase no “sentindo nada” e estar melhor sem sentir nada. Hoje vi um usuário do Twitter que printou a mensagem de uma garota pra ele “eu gosto de você” e ficou tipo “meu Deus minha ficante depois que saiu da minha casa” como fosse um absurdo alguém dizer que gosta de outra pessoa. Não é nem dizer que ama, é que gosta. Qualquer micro sinceridade assusta. Estamos a tanto tempo de máscaras que não nos reconhecemos mais.
Claro que o sistema que cada vez distância os donos dos trabalhadores, criando um abismo econômico não deixa de justificar a desesperança crônica no amanhã ou que qualquer coisa dará certo, mas não é à toa que há epidemias de solidão. Em prol do que irão se reunir pessoas que sentem nada e se importam com nada?