Confesso que não lembro exatamente o ano, mas foi na década de oitenta. Éramos uma turma de bons amigos, estilo ao filme “Conta Comigo”, de Stephen King. Onde um ia, os outros iam também, não importava a aventura, e naquela época, haviam muitas. Morávamos todos em uma ruazinha aconchegante de um bairro próximo ao centro de Erechim. Algumas das casas próximas e durante a noite, conversávamos por “telefones” feitos com potes de iogurte presos à barbantes bem esticados.
Na época um dos amigos, que vivia em situação econômica mais dura, estava tendo dificuldades para aceitar o padrasto, que há poucos meses passou a viver com sua mãe e naquela época provia o único sustento da família. O dinheiro vinha de um emprego informal, era pouco, mas naquele mês de dezembro, o padrasto ganhou um frango que seria degustado na ceia de Natal e foi guardado com no pequeno congelador. No dia 24 a ave deixou a geladeira, foi para uma sessão de temperos na pia e depois para o forno.
Era uma noite quente, estrelada e como de costume, brincamos na rua até as mães chamarem para o banho. Perto do horário da ceia, estava eu à mesa e juntamente com o restante da família, escutei gritos. Misturavam raiva e desespero. “Volta aqui”, dizia a voz mais desesperada. “Quando eu te pegar, você vai ver”, dizia a outra.
Olhamos pela janela e vi a cena que até hoje guardo na memória e no outro dia se tornou motivo de risadas na turma. Um cachorro corria na máxima velocidade que podia e levava na boca um frango assado, inteiro. Logo atrás dele, corria meu amigo, tentando inutilmente alcançar o animal ou fazê-lo parar na base dos berros. E atrás do meu amigo, corria o padrasto, com uma vara na mão.
A perseguição se estendeu por cerca de duas quadras, até que o cão se embrenhou por entre casas e desapareceu. O padrasto alcançou meu amigo, mas não houve varadas, apenas um breve momento de xingamento e em seguida, uma paciente e longa conversa.
O cachorro havia fugido com o frango assado que seria a ceia daquela família. Como? Conto mais tarde. O fato é que a situação acabou unindo várias pessoas na rua.
Como aquela família ficaria sem ceia, nós, os amigos do amigo, cada um em sua casa, passamos a montar um prato para o nosso parceiro de tantas aventuras. Independente da “tragédia”, não deixaríamos um amigo sem ceia na noite mais especial do ano, no aniversário de Cristo (naquela época, tratávamos a data com uma seriedade religiosa maior do que atualmente). Mas foram nossos pais que tiveram a melhor ideia. Cada um montou uma bandeja com diferentes guloseimas e foram entregar para a família. A partir daquele dia, os laços de amizade se fortaleceram, não apenas entre nós, que éramos crianças, mas também entre os adultos.
O rapto do frango
Na manhã de Natal nos reunimos na rua e a curiosidade de todos era saber como o cão havia raptado o frango. Segundo a versão de meu amigo, o assado foi tirado do forno e colocado sobre a mesa. Em seguida o animal apareceu e sentou em frente à porta da casa. Como meu amigo tinha uma birra com o padrasto, resolveu provoca-lo e disse “vou dar um pedaço do frango para o cachorro”, o que foi negado. Ele insistiu e as negativas continuaram. O auge da provocação aconteceu quando meu amigo agarrou a coxa da ave para arrancá-la e jogá-la para o cachorro, porém em uma mistura de pressa com aquelas armações do destino que só acontecem a cada mil anos, acabou arremessando a ave inteira para o cachorro, que não perdeu tempo, abocanhou o frango e fugiu em disparada. Desesperado, meu amigo correu para tentar resgatar a ave, e o padrasto saiu atrás dos dois, coberto de raiva.
Aquela noite não aproximou apenas as famílias da rua, também uniu um garoto e um homem, que passaram a se chamar de pai e filho.
O tempo, o trabalho e os estudos, se encarregaram de afastar a turma. Há anos não tenho mais contato com este amigo, por isso evitei citar nomes de pessoas, rua ou bairro neste texto, mas tenho certeza que se por acaso ele ou qualquer um dos “Conta Comigo” ler este texto, lembrarão da história com um sorriso no rosto.